Vera Ondei, de Osijek, Croácia
Durante cerca de nove horas nesta quarta-feira (16/9), representantes das associações que integram a Federação Internacional de Jornalistas Agrícolas (IFAJ), concentraram em Osijek, no interior da Croácia, uma agenda que passou por formação profissional, liberdade de imprensa, comunicação entre as entidades nacionais, programas para jovens jornalistas, expansão da rede internacional, novas parcerias e pela criação de uma Fundação IFAJ, além da prestação de contas da entidade e diretrizes administrativas e financeiras. O Executive Meeting e a Assembleia dos Delegados abriram a programação institucional do Congresso Mundial da federação, realizado em uma das principais regiões agrícolas croatas e que segue até domingo (20).
“Somos o canal que leva o que a IFAJ é para as nossas associações e para os nossos membros”, disse Steve Werblow, presidente da federação, ao abrir os trabalhos. No ano em que a organização completa 70 anos, Werblow colocou como meta dessas reuniões a relação entre a federação e as entidades nacionais, lembrando que a IFAJ nasceu em 1956 para reunir organizações de jornalistas agro e estimular a criação de novas associações onde elas ainda não existiam. Hoje, afirmou, uma das tarefas é fazer com que congressos, programas para jovens jornalistas, viagens técnicas, webinars, premiações e oportunidades de desenvolvimento profissional cheguem aos associados em cada país. Neste ano, 22 países estavam presentes.


No Executive Meeting, 22 países estavam representados. A reunião tratou ainda da entrada, permanência e participação das associações nacionais na federação, assunto que Werblow relacionou diretamente ao conhecimento que os associados têm das oportunidades oferecidas pela IFAJ. De acordo com o executivo, um exemplo é o que ocorreu com a Nova Zelândia, país que se desligou da IFAJ. Segundo ele, um dos motivos é que os jornalistas associados do país desconheciam programas com viagens patrocinadas, como o Exposure for Development e o Young Leaders. “É aí que perdemos a atenção das pessoas, perdemos o entusiasmo, porque não sabem o que fazemos”, disse.
Formação profissional entra na agenda de 2027
Parte desse trabalho começa a ganhar formato acadêmico. Adalberto Rossi, vice-presidente da IFAJ, apresentou o avanço de um programa de certificação internacional para jornalistas agrícolas desenvolvido com a University of Illinois, nos Estados Unidos. O projeto prevê quatro módulos oferecidos pela plataforma Coursera, com conteúdos sobre pensamento crítico, produção multimídia, liderança e uso de dados e novas tecnologias na construção de reportagens. A previsão é lançar o primeiro módulo no início de 2027 e os demais ao longo do mesmo ano.
“Para uma federação como a IFAJ, comunicação não significa simplesmente redes sociais, newsletter ou website. Significa manter a nossa rede viva”, disse Rossi. Segundo ele, a formação profissional precisa caminhar junto com uma comunicação mais regular entre a federação e as associações de cada país. Os dirigentes nacionais, afirmou, são a ligação entre os programas criados pela IFAJ e os jornalistas que podem participar deles.
A mesma preocupação orientou a criação de um pacote de integração destinado aos novos representantes das associações. O material reúne informações sobre congressos, programas, prêmios, comitês e desenvolvimento profissional e apresenta também as responsabilidades de quem integra a organização, entre elas participar das reuniões, votar, distribuir oportunidades e manter os associados informados. “Queremos que cada novo executivo conheça os dois lados desde o começo: o que a IFAJ pode fazer por sua associação e o que sua associação pode trazer para a IFAJ”, afirmou Rossi.
Os programas para jovens jornalistas permanecem entre os instrumentos usados para trazer novos profissionais para a federação. Werblow chamou a atenção para os participantes do Boot Camp e para iniciativas como Young Leaders e Exposure for Development, o E4D, que reúnem treinamento, contato com profissionais de outros países e cobertura de diferentes sistemas agrícolas. “Levem essas informações de volta para suas associações. Incentivem seus colegas e seus membros a participar”, disse.
Rede internacional avança na África e na América Latina
Não por acaso, o fortalecimento das associações nacionais ocupou uma parte do Executive Meeting com resultados obtidos fora dos congressos anuais. A IFAJ vem usando recursos de uma parceria global para apoiar entidades e estimular a criação de organizações de jornalistas agrícolas em países onde elas ainda não estão estruturadas. Nos últimos dois anos, esse trabalho passou por Quênia, Libéria, Togo e Etiópia.
Na Etiópia, por exemplo, Werblow participou neste ano de um workshop de dois dias que reuniu cerca de 35 jornalistas e comunicadores depois que Aklilu Tadesse, participante do congresso anterior da IFAJ no Quênia, propôs a criação de uma associação no país. A agenda incluiu reuniões com instituições locais, entre elas o Agricultural Transformation Institute, que manifestou interesse em apoiar a iniciativa. “Ele me disse: ‘Precisamos de uma associação na Etiópia’. Eu respondi: ‘Ótimo. Como podemos ajudar?’”, contou Werblow.
A atuação não está restrita a países que ainda não possuem uma organização de jornalistas agrícolas. Werblow disse aos dirigentes presentes que associações já integrantes da federação também podem apresentar projetos para treinamentos e ações de fortalecimento institucional. “Se vocês quiserem organizar um workshop, fortalecer o que estão fazendo ou trazer alguma energia nova, venham conversar conosco”, afirmou.
Na América Latina, por exemplo, o Exposure for Development prepara uma missão à Costa Rica com um grupo de jornalistas selecionados por um júri e representantes de cerca de dez países, segundo Werblow. Entre eles está o Brasil, com a associada da Rede Agrojor Marusa Pacheco Trevisan. O programa leva pequenos grupos de profissionais para acompanhar sistemas de produção, pesquisadores, agricultores e cadeias agropecuárias em outros mercados e produzir conteúdo a partir dessas viagens.
O calendário institucional também já avança para os próximos anos. Em 2027, o Executive Committee se reunirá na Inglaterra, em uma programação que começará em Windsor e seguirá por propriedades e cadeias de produção de leite, carne bovina, ovinos e cider em Somerset. A meta é ter cerca de 50 jornalistas de todo o mundo.


O IFAJ Vision 2035 também trabalha com propostas para os próximos anos da profissão e da federação. “O que 2035 vai representar para jornalistas e comunicadores?”, perguntou Werblow durante a apresentação dos comitês. O grupo prepara recomendações que deverão ser apresentadas na reunião de meio de ano da IFAJ, no Reino Unido, em abril. “Estamos trabalhando para criar recomendações específicas que nos levem até 2035 de uma maneira que mantenha a IFAJ relevante e útil para os associados”, disse. Do Brasil, integra o grupo Daniel Azevedo, vice-presidente Internacional, que também está no conselho da Global Foundation for Agricultural Journalism (GFAJ) ou Fundação IFAJ, uma entidade em processo de organização.
Sua função é ampliar recursos destinados a projetos e criar bolsas que permitam a participação de jornalistas em atividades internacionais. “À medida que desenvolvemos a fundação, faz parte da jornada a tentativa de criar bolsas e oportunidades para ajudar os jornalistas a participarem dos eventos da IFAJ”, disse Werblow. A federação começou a testar um modelo de financiamento por crowdfunding para projetos específicos.
No Executive Meeting, por exemplo, Melanie Epp explicou que as associações participantes terão de apresentar propostas para receber recursos, em um processo semelhante a uma solicitação de grant (grant application). Segundo ela, a prática pretende preparar as próprias associações para trabalhar com pedidos estruturados de financiamento no futuro. “Desenvolvemos um formulário financeiro em que as entidades participantes terão de apresentar uma proposta para receber recursos”, disse.
Liberdade de imprensa permanece entre os temas da federação
Tratada pela IFAJ em seu comitê Freedom of the Press, a liberdade de imprensa também entrou na agenda institucional em Osijek. A britânica Olivia Cooper falou do cenário global da liberdade de imprensa que atingiu um momento crítico, registrando o menor nível dos últimos 25 anos.
Segundo o Índice Mundial da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), mais da metade das nações avaliadas estão nas categorias “difícil” ou “muito grave”. Esses dados mostram a situação do jornalismo em geral no mundo todo, sem se limitar a recortes setoriais, entre eles o agronegócio. De modo geral, a erosão das garantias decorre da expansão de legislações restritivas e políticas de segurança nacional que sufocam o direito à informação, inclusive em democracias consolidadas.


A RSF divide os países em cinco faixas de desempenho: Boa, Satisfatória, Problemática, Difícil e Muito Grave. Nações europeias como Noruega, Países Baixos, Dinamarca e Suécia ocupam o topo da tabela com as melhores pontuações. No extremo oposto, Irã, Turquia, Paquistão e Bangladesh enfrentam cenários críticos. O meio da lista concentra democracias que vivem instabilidades graduais, onde o acesso à informação pública sofre com entraves burocráticos e judiciais.
O Brasil ocupa a 52ª posição com 66,37 pontos, figurando na categoria “Problemática”. O país está no mesmo bloco de nações como Itália (56ª), Japão (62ª) e Estados Unidos (64ª). Embora o Brasil fique acima das faixas mais severas, sua posição indica a presença de tensões constantes no dia a dia dos profissionais de comunicação.
Em paralelo a esse mapa geral, o Comitê de Liberdade de Imprensa da IFAJ (International Federation of Agricultural Journalists) lida com uma pauta própria de desafios. Suas prioridades incluem rebater pressões políticas, combater o assédio digital e proteger a integridade de repórteres e fontes. O grupo também atua para garantir o acesso a dados governamentais, preservar a independência editorial e fortalecer o trabalho conjunto com associações locais.
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