Vera Ondei, de Osijek, na Croácia
A International Federation of Agricultural Journalists (IFAJ), lançou durante seu Congresso Mundial, realizado em Osijek, na Croácia, no dia 19 de setembro, o livro comemorativo de seus 70 anos, uma coletânea de reportagens sobre agricultura produzidas por jornalistas de 45 países.
Apresentada pelo presidente da federação, Steve Werblow, a publicação inclui a participação do Brasil com “Living Coffee Culture”, reportagem de Leandro Fidelis, do Conexão Safra, no Espírito Santo, e integrante da Rede Brasileira de Jornalistas Agropecuários (Rede Agrojor), sobre produtores de cafés especiais da região do Caparaó.
O presidente da IFAJ situa o projeto dentro das sete décadas de atuação da IFAJ, criada em 1956, período no qual o jornalismo agrícola acompanhou mudanças na mecanização, na ciência, no comércio e nos sistemas de produção. Werblow também inclui entre os temas contemporâneos a inteligência artificial e a circulação de informações em um ambiente no qual jornalistas especializados precisam transitar por agricultura, economia, ciência, política e tecnologia.

“O mundo nunca precisou tanto do nosso papel no ambiente da comunicação, no qual as vozes mais altas não são necessariamente as fontes mais bem informadas”, disse Werblow durante o lançamento da publicação.
A editora Rachel Martin explica que o projeto ganhou uma dimensão mais ampla conforme as reportagens começaram a chegar dos países participantes. “Este livro não é realmente sobre agricultura. Ou melhor, é sobre muito mais do que agricultura”, afirma. Os textos passaram a formar um retrato de produtores, famílias e comunidades ligados à terra, inseridos em questões que envolvem sucessão, clima, segurança alimentar, migração, tradição, tecnologia, gestão dos recursos naturais e transformação dos sistemas produtivos.
Werblow leva a discussão para o futuro do próprio jornalismo agrícola. No prefácio da obra, ele chama atenção para “um ambiente de comunicação em que inteligência artificial, excesso de informação e perda de confiança nas fontes passaram a dividir espaço com temas tradicionais da cobertura do campo“. Segundo ele, o trabalho dos jornalistas especializados continuará dependendo da capacidade de compreender essas mudanças e acompanhar, de perto, quem produz alimentos em diferentes partes do mundo.
O livro foi dividido em cinco seções temáticas, organizadas a partir das questões que atravessam a agricultura nos países representados. A primeira, “Life on the Land and Daily Reality of Farming”, reúne histórias sobre a vida no campo e o cotidiano da produção; a segunda, “Heritage and Tradition: Family Farms, Succession and Culture”, trata de propriedades familiares, sucessão, tradição e cultura; e a terceira, “Farming Under Pressure: Economics, Policy, Climate Constraints”, concentra relatos sobre pressões econômicas, políticas e climáticas enfrentadas pelos produtores.
A quarta seção, “Innovation and Adaptation: Tech and New Systems”, aborda tecnologia, inovação e novos sistemas produtivos e é justamente onde entra o Brasil, com o capítulo “Living Coffee Culture”. O país aparece ao lado de Uganda, Filipinas, Gana, Quirguistão, Eslováquia, Noruega, Hungria, Romênia, Espanha e Nova Zelândia. A quinta parte, “Looking Ahead: Future-Focused, Next Generation”, desloca a atenção para o futuro da atividade e para a próxima geração, com reportagens de países como Dinamarca, Eslovênia, Estados Unidos, Quênia, Libéria, Burkina Faso, Suíça, Serra Leoa, Nigéria e Índia.
A escolha do trabalho que representaria o Brasil começou com a abertura, pela Rede Agrojor, do envio de reportagens para análise. A entidade constituiu um comitê formado por Ana Sampaio, diretora de comunicação nacional, Ingrid Alves, suplente na mesma função, e Marcelo Oliveira, também diretor da rede, que avaliaram os materiais apresentados antes da definição do texto encaminhado para integrar a publicação comemorativa.

O capítulo brasileiro escrito por Fidélis acompanha Clayton Monteiro, da Fazenda Ninho da Águia, e Willians Valério, do Sítio Recanto dos Tucanos, em Alto Caparaó, Minas Gerais. Ex-surfistas, os dois construíram trajetórias na cafeicultura ligadas à produção de cafés especiais, ao manejo ambiental e à valorização da origem. Clayton estruturou a Ninho da Águia com certificação sem uso de agroquímicos, 25 hectares de café em uma área de 55 hectares e produção anual de cerca de 300 sacas, das quais 70% a 80% são classificadas como especiais. Também passou a vender diretamente para compradores internacionais e venceu o Coffee of the Year em 2014 e 2015.
Willians seguiu pela agricultura sintrópica no Sítio Recanto dos Tucanos, a quase 1.500 metros de altitude, onde o café arábica divide espaço com mais de 100 espécies. Depois de aprofundar o manejo agroflorestal, venceu o Coffee of the Year na categoria arábica em 2019, com uma bebida de 90,5 pontos. As duas histórias mostram como qualidade, biodiversidade, conservação do solo e novas relações comerciais passaram a integrar a produção de cafés especiais no Caparaó.
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