Na tarde desta terça-feira (17), como parte da agenda do Executive Meeting IFAJ 2026, encontro que reuniu 51 jornalistas de 23 países ligados à Federação Internacional de Jornalistas Agrícolas, o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Ingo Plöger, foi submetido a uma sabatina internacional.
Em sessão aberta de perguntas e respostas, profissionais de diferentes continentes questionaram temas centrais do agronegócio brasileiro, incluindo barreiras sanitárias, relações comerciais com a China, desmatamento, distribuição de renda e o papel da tecnologia na produção tropical. Ao lado dele, participou também Nina Plöger, diretora de formação de liderança da entidade, com intervenções voltadas à inclusão e sucessão no campo.
O Executive Meeting IFAJ 2026 ocorreu no Brasil em um momento de reorganização do comércio global de commodities agrícolas. Tensões comerciais entre Estados Unidos e China, além de exigências ambientais mais rigorosas da União Europeia, compõem o cenário que impacta diretamente a pauta exportadora brasileira.
A ABAG atua como articuladora entre empresas, produtores, instituições de pesquisa e governo. Segundo Ingo Plöger, a entidade reúne mais de 80 associações e disse aos estrangeiros que ela funciona como um “termômetro” dos principais gargalos da cadeia produtiva, que vai “das sementes à mesa”, incluindo produção, processamento, logística e consumo. A sabatina expôs percepções externas sobre o agronegócio brasileiro e permitiu respostas diretas sobre temas estruturais. “Estamos tentando entender o mundo e também entender o Brasil. Esse diálogo é essencial”, afirmou. Plöger iniciou a conversa contextualizando a singularidade da agricultura tropical.
“Tivemos uma enorme revolução de tecnologias e de compreensão do que é o biológico. A competitividade está acontecendo dentro dessa biodiversidade”, afirmou. Ele destacou diferenças estruturais em relação ao hemisfério norte. “Nas regiões tropicais você tem três vezes o poder da fotossíntese. Isso significa uma biomassa com desenvolvimento completamente diferente, em crescimento e reação ao clima.”
Um dos pontos iniciais da exposição tratou da logística. Plöger comparou o sistema brasileiro com o norte-americano, destacando o ritmo acelerado de colheitas no Brasil. “Nos Estados Unidos, o produtor pode armazenar por meses. No Brasil, você colhe soja, depois milho, depois açúcar. A armazenagem dura quatro ou cinco meses e precisa liberar espaço para a próxima safra”, disse.
Segundo ele, essa dinâmica pressiona a infraestrutura de transporte. “A logística está no trilho, no trem, nos navios. Temos que pensar em um gerenciamento completamente diferente”, explicou aos estrangeiros de países que possuem uma realidade oposta ao Brasil.
A primeira pergunta da sabatina partiu de Jacob Zuchowski, jornalista dos Estados Unidos, que questionou a suspensão de carregamentos de grãos brasileiros para a China por motivos sanitários. Plöger respondeu com base em histórico de negociações. “A China faz isso de tempos em tempos, com soja, milho ou carne. Depende da situação de mercado e da necessidade de importação”, disse ele, mencionando resíduos vegetais como foco do episódio recente. “Quando você transporta grãos, não há limpeza de 100%. Isso já foi um problema no passado, inclusive na Europa, com transgênicos.”
Sobre a reação do governo brasileiro, destacou a agilidade. “O governo reage muito rápido quando há um problema de qualidade. Analisa se é real e define o destino dos carregamentos.” Ao ser questionado sobre possíveis motivações políticas, respondeu: “Pode não ser apenas técnico. O cenário global está mudando, mas não é surpresa. O importante é mostrar o produto como ele é, e negociar.”
Desmatamento e regulação ambiental
O jornalista Dewald Kirsten, da África do Sul, levantou a questão da meta de zerar o desmatamento ilegal até 2028 em paralelo à expansão agrícola. Plöger diferenciou os conceitos. “Temos desmatamento legal e ilegal. O ilegal é crime e deve ser combatido com força do Estado”, afirmou.
Para isso, Plöger explicou regras do Código Florestal. “Na Amazônia, é preciso preservar 80% da área. No Sul, 20%. Existem normas federais, estaduais e municipais.” Sobre as queimadas, destacou desafios técnicos. “Fogo pode ser classificado como desmatamento. Temos incêndios criminosos e acidentes. Por isso, o combate exige cooperação internacional.”
Plöger citou a importância da tecnologia para o combate ao desmatamento ilegal. “Hoje, com câmeras e satélites, é possível prevenir. Mas o tempo de resposta define o impacto.”
Mas uma das questões mais amplas veio de uma jornalista com atuação entre Turquia, China e Finlândia, que abordou a concentração de riqueza no agronegócio brasileiro. Ela questionou como os ganhos do setor poderiam beneficiar uma parcela maior da população.
Plöger respondeu com abordagem pessoal e econômica. “Como brasileiro, não posso aceitar que tenhamos fome no país”, disse. Ele destacou disparidades regionais sobre como o país se posiciona. “Há áreas com agricultura forte, como Mato Grosso e Goiás, com desemprego próximo de 2%, e outras regiões com níveis mais altos de vulnerabilidade.”
Segundo ele, o agronegócio tem gerado um dinamismo local, ao mostrar que onde a agricultura e pecuária são forte, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), de modo geral é mais alto que em outras regiões. “Nessas regiões, você vê escolas, hospitais e crescimento econômico. O problema maior é a falta de mão de obra qualificada”, uma demanda crescente do campo brasileiro.
Plöger disse aos jornalistas estrangeiros sobre os atuais salários como indicador. “Produtores relatam pagar entre R$ 7 mil e R$ 8 mil para profissionais qualificados.” E também relacionou desenvolvimento à interiorização à busca por qualificação. “Estados fora do eixo tradicional, crescendo com base na agricultura e atraindo investimentos.”
Outro ponto levantado pelo presidente da ABAG foram os exemplos de transformação regional. Ele mencionou projetos de conectividade digital em municípios do Centro-Oeste. “Há regiões com dezenas de municípios conectados por fibra óptica. Isso impacta escolas, hospitais e serviços públicos”, afirmou. Aos jornalistas, disse que a digitalização tende a alterar o perfil produtivo. “Nos próximos cinco anos, essas áreas terão serviços completamente diferentes.”
Ao longo da sabatina, Plöger voltou ao conceito de bioeconomia tropical como diferencial competitivo. Ele afirmou que o Brasil opera sob lógica distinta das economias temperadas. “A agricultura tropical trabalha com ciclos, reações e produtividade diferentes”, uma característica que exige adaptação de políticas públicas e infraestrutura.
Liderança feminina e sucessão no campo
Antes das perguntas internacionais, Nina Plöger apresentou iniciativas da ABAG voltadas à formação de lideranças. Ela destacou a necessidade de inclusão de mulheres e jovens no agronegócio. “Quando pensamos em geração, pensamos em inclusão para mulheres, jovens, estudantes e sucessores”, afirmou.
Segundo Nina, há mudanças no perfil do produtor rural. “A maioria dos agricultores hoje tem entre 35 e 60 anos e está com o celular na mão. Para a próxima geração, isso será uma ferramenta central.” Ela também abordou o uso de tecnologia. “Temos grupos de mulheres agricultoras discutindo inteligência artificial e como trazer isso de forma acessível para pequenas propriedades.”.
Ela citou experiências recentes de inclusão digital no Brasil. “Durante a pandemia, programas sociais e ferramentas como o Pix ampliaram o acesso da população ao sistema financeiro”, afirma Nina “Precisamos de outro tipo de educação para acompanhar o avanço tecnológico no campo”. Para ela, o desafio está na capacitação. “Precisamos preparar a sociedade para esse novo cenário.”
O Executive Meeting tem como patrocinadores Ouro a Bayer, a John Deere e Yara Fertilizantes, mais a Basf (Prata) e Corteva (Bronze). E conta com o apoio da ABAG, Ford, Cachaça Cabaré, Toledo do Brasil, Legga e Ludu.
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