Painel reuniu representantes da imprensa, do marketing e da comunicação corporativa para discutir como ampliar o diálogo entre o agro e a sociedade sem comprometer a independência jornalística
A comunicação do agronegócio esteve no centro dos debates durante o Fórum Agrojor, realizado na programação do SIAVS (Salão Internacional da Proteína Animal), no dia 06 de agosto. Promovido pela Rede Agrojor (Rede Brasil de Jornalistas Agro), o encontro reuniu, de forma presencial e online, cerca de 60 jornalistas, profissionais de marketing e representantes do setor para discutir os limites, as responsabilidades e as complementaridades entre jornalismo, marketing e assessoria de imprensa na construção da imagem do agro brasileiro.
Ao longo do fórum, com a participação do público presencial e online com perguntas e debates, os participantes convergiram em um ponto central: fortalecer a reputação do agronegócio brasileiro não é responsabilidade exclusiva do jornalismo nem do marketing. Trata-se de um trabalho coletivo que envolve empresas, entidades, assessorias de imprensa, veículos de comunicação e profissionais comprometidos com a transparência, a produção de informação qualificada e o diálogo permanente com a sociedade.
Lideraram a discussão Mariele Previdi, vice-presidente da Rede Agrojor, Fernanda Pressinott, editora do CNN Agro e Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e do Agro (ABMRA).
A abertura foi conduzida pela vice-presidente, que destacou a importância de promover um debate recorrente entre os profissionais da comunicação do agro. Segundo ela, é comum que jornalistas sejam questionados sobre a responsabilidade de “defender o agro”, quando, na realidade, o papel do jornalismo é informar a sociedade de forma independente e crítica. “A discussão não é jornalismo versus marketing. É compreender como cada área pode contribuir, dentro de suas atribuições, para ampliar a circulação de informações de qualidade”, destacou.
A presidente da Rede Agrojor, Vera Ondei, participou por videoconferência diretamente de Xangai, na China. Em sua mensagem, ressaltou que o jornalismo evoluiu por meio do debate, da troca de experiências e da disposição para rever conceitos, defendendo a produção de um jornalismo agro cada vez mais qualificado.
Independência jornalística é indispensável
Fernanda Pressinott explicou que a missão do jornalista é atender ao interesse do público e não atuar como porta-voz de empresas ou setores econômicos. Ela lembrou que notícias consideradas negativas para uma organização podem ser extremamente relevantes para investidores, fornecedores, funcionários e consumidores.
Segundo a jornalista, esconder informações apenas dificulta o trabalho da imprensa e aumenta o risco de interpretações equivocadas.”Quanto mais as empresas se fecham, maior é a dificuldade para contextualizar corretamente os fatos. A informação será publicada de qualquer forma. Quando a empresa se posiciona, ela ajuda a construir uma narrativa mais completa e transparente”, afirmou.
Fernanda também defendeu que o agro precisa comunicar melhor temas sensíveis à sociedade. “É preciso enfrentar assuntos como uso de defensivos, desmatamento ou outros temas controversos com dados, contexto e transparência, ao invés de simplesmente negar os problemas. O setor ainda se comunica muito mal com quem está fora da porteira”, observou.
Já Ricardo Nicodemos reforçou que marketing e jornalismo são atividades complementares, porém exercem papéis completamente diferentes. Enquanto a publicidade e o marketing têm a missão de construir reputação por meio de comunicação institucional, a imprensa deve preservar sua autonomia para informar, inclusive quando a pauta envolve temas negativos. “Publicidade é publicidade. Assessoria de imprensa é assessoria de imprensa. Jornalismo é jornalismo. Quando esses papéis se confundem, todos perdem, principalmente a credibilidade da informação”, afirmou.
Nicodemos também alertou para a necessidade de as empresas continuarem investindo nos veículos especializados de comunicação, ressaltando que a sustentabilidade do jornalismo depende da publicidade e que a proliferação de canais próprios não substitui o papel da imprensa independente.
Comunicação estratégica para aproximar cidade e campo
Durante o painel, Ricardo apresentou o projeto “Marca Agro do Brasil”, desenvolvido pela ABMRA com base em pesquisas nacionais sobre percepção pública do setor.
Os levantamentos mostram um contraste interessante: enquanto 65% dos produtores acreditam que a população urbana tem uma visão negativa do agro, cerca de 70% dos entrevistados nas cidades afirmam possuir uma percepção positiva do setor. O principal desafio identificado está entre o público jovem, mais influenciado pelas redes sociais e menos conectado à realidade da produção agropecuária.
Segundo ele, o projeto propõe uma estratégia permanente baseada em três pilares — consistência, frequência e continuidade — para aproximar a sociedade urbana do agronegócio por meio da educação, da comunicação e do relacionamento.
A campanha utiliza uma personagem chamada “Aninha”, criada a partir de pesquisas qualitativas, para apresentar o agro de forma leve, educativa e sem tom defensivo, estimulando o público a conhecer melhor a produção brasileira.
Outro tema recorrente durante o fórum foi a importância de proporcionar experiências de campo para jornalistas que não atuam diretamente na cobertura agropecuária. Fernanda destacou que boa parte dos profissionais das grandes redações desconhece a dinâmica do setor e que iniciativas de aproximação podem contribuir para uma cobertura mais qualificada. Nicodemos complementou defendendo programas permanentes de relacionamento com jornalistas, visitas técnicas e ações de educação voltadas aos formadores de opinião.

Transparência fortalece a reputação
O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, participou brevemente da programação e ressaltou que o SIAVS nasceu justamente com o propósito de aproximar jornalistas da realidade da cadeia produtiva.
Ele destacou iniciativas como o Projeto Imagem, que leva profissionais da imprensa internacional para conhecer de perto a produção brasileira, e reforçou que transparência é o melhor caminho para enfrentar críticas e combater a desinformação. “No momento em que convivemos com tantas fake news, o papel do jornalismo sério e da comunicação responsável torna-se ainda mais importante para mostrar a realidade do setor”, afirmou.
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