Por Vera Ondei, presidente da Rede Brasil de Jornalistas Agro (Rede Agrojor)
Quando começamos a discutir a criação do Diálogos Agrojor, lá no início de 2023, havia uma questão que nos incomodava: por que o agronegócio, um setor com tantos encontros, congressos e fóruns dedicados aos seus negócios, não contava com um espaço para discutir o próprio jornalismo? Naquele momento, a Rede Brasil de Jornalistas Agro havia completado seu primeiro ano de existência formal e entendíamos que uma entidade criada para reunir profissionais de diferentes regiões do país precisava abrir essa conversa. Queríamos trazer para o universo do agro as experiências, os conhecimentos e os debates de quem fazia jornalismo em outras áreas.
A ideia provocou discussões. Afinal, estávamos propondo um evento de agrojornalistas no qual os protagonistas seriam profissionais que não cobriam o agronegócio. Para alguns, parecia uma contradição. Para outros, fazia sentido justamente por isso. O jornalista que escreve sobre soja, carne, café, florestas, empresas ou mercados financeiros enfrenta os mesmos dilemas profissionais daquele que cobre política, tecnologia, saúde ou comportamento. O que muda é o conhecimento necessário para compreender e interpretar cada área. Os instrumentos de apuração, os desafios éticos, as transformações tecnológicas e a relação com o público pertencem a uma profissão que ultrapassa as fronteiras das editorias.
Naquele outubro de 2023, a discussão sobre comunicação e jornalismo ainda não ocupava espaço próprio na agenda de eventos do agronegócio. Havia uma extensa programação de encontros voltados à produção, à tecnologia, aos mercados e aos negócios do setor, mas faltava um ambiente em que os jornalistas pudessem discutir as mudanças na profissão e aprender com experiências desenvolvidas fora de sua especialidade. A proposta do Diálogos nasceu dessa percepção. Queríamos que o agro ouvisse jornalistas de outras áreas, profissionais que estavam experimentando linguagens, ferramentas e modelos de trabalho que também poderiam transformar a maneira de informar sobre o campo.
Um início de decisões conceituais
A estreia ocorreu em 19 de outubro de 2023, em formato online, com a inteligência artificial generativa já na programação. O ChatGPT havia chegado ao grande público menos de um ano antes, e as redações começavam a experimentar ferramentas capazes de produzir textos, organizar informações e alterar processos de trabalho. Convidamos Magaly Prado, pesquisadora de inteligência artificial na PUC, e Luiz Pacete, hoje na Exame, jornalista especializado em tecnologia, mais Eduardo Tessler, hoje diretor para o Brasil da Innovation Media Consulting Group, para examinar as oportunidades e os riscos dessa mudança.
Também ouvimos dois pitchs sobre fake news e qualidade de fonte de dados com a jornalista francesa Fanny Lothaire, e brasileiro. E os desafios da comunicação corporativa com Jorge Soufen Júnior, da 2PRÓ Comunicação; Nicholas Vital, da Aberje, e Eduardo Ribeiro, da Mega Brasil.
Na segunda edição, em 29 de outubro de 2024, já presencial e online, no auditório da Fundação Instituto de Administração (FIA), em São Paulo, avançamos sobre questões que começavam a interferir diretamente nas carreiras. Glória Vanique e Marc Tawil discutiram oportunidades e desafios para jornalistas no ambiente digital. Katia Brembatti, então presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), trouxe o jornalismo de dados para o centro da conversa. Reunimos cerca de 90 profissionais e começamos a observar algo que, desde o início, pretendíamos estimular: jornalistas especializados no agro conversando sobre experiências profissionais que poderiam ser incorporadas à sua rotina, independentemente dos assuntos que cobriam.
O terceiro encontro, realizado em 4 de outubro de 2025, também na FIA, reuniu cerca de 100 jornalistas e levou a discussão para a construção de narrativas, a disputa pela audiência e a reputação nas redes sociais. Cristiane Barbieri, do Estadão, e Angélica Mari, do Futuros Possíveis, abordaram o storytelling em um ambiente de saturação de informações. Paulo Silvestre, professor e criador de conteúdo, e Antoine Morel, diretor do Canal UOL, discutiram narrativas imersivas, realidade aumentada, podcasts e novos formatos. Pablo Toledo, da BYD, e Fábio Santos, da CDN, trataram de reputação e imagem em tempos de redes sociais.
Futuro desenhado pela realidade
Esses três encontros não foram planejados como etapas de uma sequência previamente definida. Os temas nasceram das transformações que acompanhávamos na profissão e das conversas mantidas entre os próprios associados da Rede Agrojor. Mas, quando vistos em conjunto, eles mostram uma trajetória. Começamos discutindo como a inteligência artificial poderia modificar o trabalho jornalístico, passamos pelas competências necessárias para atuar nas plataformas digitais e chegamos à questão de como produzir conteúdo, conquistar audiência e preservar a confiança em ambientes de circulação cada vez mais fragmentados.
É com esse histórico que chegamos ao quarto Diálogos Agrojor, marcado para 7 de novembro de 2026, no Centro de Convenções da FAAP, em São Paulo. Nesta edição, voltamos a discutir inteligência artificial, mas a pergunta já não é a mesma de 2023. Se naquele momento queríamos compreender o alcance das ferramentas generativas, agora precisamos entender o lugar do jornalista em processos nos quais a tecnologia passou a executar parte das tarefas de pesquisa, organização, redação e distribuição de conteúdo.
Para essa conversa, convidamos Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa e pesquisadora do Digital Democracy Institute of the Americas, nos Estados Unidos. Sua trajetória na checagem de fatos e no enfrentamento à desinformação permite discutir um ponto que considero fundamental: quanto mais informações podem ser produzidas e distribuídas automaticamente, maior é a necessidade de estabelecer quem responde por sua veracidade, procedência e contextualização. No agrojornalismo, que lida diariamente com estatísticas de produção, estudos científicos, dados ambientais, resultados empresariais e informações de mercado, essas responsabilidades fazem parte da rotina de apuração.
Outra questão que atravessou nossos encontros anteriores retorna agora sob uma perspectiva profissional. Em 2024, discutimos as oportunidades que as plataformas digitais ofereciam aos jornalistas. Na quarta edição, Mara Luquet, fundadora do canal MyNews, e Jaqueline Naujorks, jornalista e influenciadora, vão debater a chamada era do jornalista-marca. Até que ponto um profissional depende de uma empresa de comunicação para construir sua carreira? Como se forma uma audiência própria? Quais são as possibilidades de receita e quais os limites entre identidade profissional, produção independente e compromisso editorial?
São perguntas que interessam diretamente aos associados da Rede Agrojor. Nossa entidade reúne profissionais de redações, assessorias de imprensa, empresas de comunicação, projetos independentes e outras atividades relacionadas ao jornalismo. Essa diversidade permite observar como as mudanças na profissão atingem trabalhadores que exercem funções diferentes, mas compartilham a necessidade de manter conhecimento técnico, atualização e credibilidade.
A economia da atenção, tema de outra mesa da quarta edição, completa essa discussão. Paula Miraglia, fundadora da Momentum Journalism & Tech e publisher da revista Gama, e Elbio Valente, idealizador da newsletter Economia da Atenção, vão tratar da concorrência pelo tempo das pessoas em um ambiente no qual textos, vídeos, podcasts, redes sociais e sistemas automatizados disputam o mesmo público. A questão já aparecia em 2025, quando discutimos storytelling e narrativas imersivas. Agora, queremos compreender como essa disputa interfere nas decisões sobre formatos, distribuição e produção jornalística.
Há uma particularidade nessa discussão para quem trabalha com o agronegócio. Boa parte das informações que produzimos nasce de assuntos tecnicamente complexos, com efeitos sobre a economia, os alimentos, o meio ambiente e a vida cotidiana. Fazer essas informações circularem fora dos públicos especializados exige conhecimento sobre linguagem, plataformas e comportamento das audiências. Também exige compreender que a relevância de uma pauta não garante, por si, que alguém vá dedicar tempo a ela.
Por que avançar conectados com o mundo?
Desde a criação da Rede Agrojor, em abril de 2022, procuramos construir um espaço em que profissionais de diferentes regiões, veículos e trajetórias possam trocar conhecimento e experiências. Hoje, reunimos cerca de 140 jornalistas, distribuídos por 12 estados e pelo Distrito Federal, e integramos a Federação Internacional de Jornalistas Agro (IFAJ), organização presente em 62 países. Essa rede de relações se desenvolve ao longo do ano, em oficinas, workshops e fóruns, mas o Diálogos criou uma oportunidade específica de encontro em torno das transformações da profissão.
Por isso, uma das decisões para 2026 foi reservar parte da programação às conversas entre os participantes. A quarta mesa, dedicada ao networking e às conexões profissionais, será realizada durante um almoço, ampliando o tempo para os encontros que muitas vezes ficam restritos aos intervalos dos eventos. É uma maneira de aproximar colegas que trabalham em diferentes regiões, frequentemente se conhecem pelas assinaturas das reportagens ou pelas interações digitais e raramente conseguem conversar pessoalmente.
Assim, em suas quatro edições, o Diálogos Agrojor mantém a proposta que orientou sua criação: trazer para dentro do nosso universo as experiências, os conhecimentos e os questionamentos de profissionais que fazem jornalismo em outras áreas. A programação de 7 de novembro retoma essa escolha, agora diante de transformações que interferem diretamente na maneira como trabalhamos, nos relacionamos com o público e construímos nossas carreiras. São essas questões que vamos colocar à mesa na FAAP. Nos vemos lá.
Vera Ondei
É jornalista formada em 1986. Iniciou a carreira na revista Quatro Rodas, onde foi a primeira mulher a realizar os testes para integrar a equipe de repórteres viajantes. Trabalhou por 17 anos na Revista DBO, como repórter, editora e comentarista de TV. Na sequência, passou nove anos na Editora Três, como editora de agronegócio. Desde 2021, atua na Forbes Brasil. É presidente da Rede Brasil de Jornalistas Agro (Rede Agrojor), em seu segundo mandato, e é confundadora da entidade de um grupo de 11 jornalistas.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da Rede Brasil de Jornalistas Agro, ou de algum de seus diretores.
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