O que os cientistas do clima esperam do jornalismo brasileiro

Em workshop da Rede Agrojor, Paulo Artaxo, da USP, e José Marengo, do Cemaden, listaram os principais equívocos de linguagem na cobertura de eventos extremos e defenderam o jornalista como o elo mais importante entre a ciência e a sociedade

Confundir tempo com clima, tratar eventos probabilísticos como certezas e criar falsas polarizações entre cientistas e negacionistas estão entre os erros mais recorrentes do jornalismo brasileiro na cobertura de mudanças climáticas. O diagnóstico partiu de Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), e de José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), durante o workshop  “Como cobrir mudanças climáticas sem cair em narrativas prontas”, da Rede Agrojor, realizado nesta quarta-feira (24) com jornalistas especializados em agronegócio de todo o Brasil.

“Mudança climática deixou de ser um aspecto científico para se tornar uma questão de comunicação”, afirma Artaxo. “O mais fundamental não é fazer mais ciência. O mais fundamental é fazer com que o conhecimento que a gente já tem hoje chegue na população.”

Para o físico, que integra sucessivos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e participou de projetos em instituições como Harvard, Instituto Max Planck e Nasa, os jornalistas são os protagonistas mais importantes no debate climático atual, porque dominam os canais de comunicação com a sociedade em escala que nenhum laboratório ou instituto de pesquisa alcança.

A primeira falha apontada pelos dois pesquisadores é também a mais básica: a confusão entre previsão de tempo e projeção climática. “Tempo é algo que está acontecendo neste momento. Clima é um processo de longo prazo”, diz Marengo. O equívoco tem consequências diretas na cobertura porque leva o jornalista a tratar eventos isolados, como uma semana de frio intenso ou uma chuva fora de estação, como evidência ou refutação de tendências que se constroem ao longo de décadas. A distinção, simples na teoria, determina se uma reportagem informa ou desinforma o leitor sobre os riscos reais a que está exposto.

A linguagem probabilística é o segundo campo de tensão. Artaxo lembra que a ciência climática não trabalha com certezas, mas com graus de probabilidade, e que traduzir esse raciocínio para o público é uma das tarefas mais difíceis do jornalismo especializado. “Vai chover amanhã? Temos 80% de chance de chuva. Vai ter um El Niño muito forte? Temos 60% de probabilidade”, exemplifica. Ao transformar probabilidades em afirmações categóricas para ganhar clareza, o texto jornalístico frequentemente distorce o que a ciência de fato sabe e o que ainda está em aberto. O resultado é que o público ora superestima os riscos, ora os descarta quando a previsão não se confirma exatamente como foi comunicada.

O uso de expressões como “super El Niño” ilustra o dilema entre rigor e comunicabilidade. “Meteorologicamente, falamos de El Niño fraco, moderado, forte e muito forte. Super El Niño não existe como definição do Centro Climático Mundial”, explica Marengo. O próprio climatologista, nascido no Peru e radicado no Brasil há mais de 30 anos, passou a tolerar o termo ao perceber que ele aproximava o público de uma realidade que a nomenclatura técnica, sozinha, não conseguia transmitir. Para ele, o desafio não é escolher entre precisão e acesso, mas construir pontes entre os dois sem abrir mão da substância.

O tema do negacionismo recebeu uma leitura diferente da usual. Artaxo defendeu que a imprensa abandone o enquadramento de debate entre “negacionistas” e “defensores da ciência”. “Quem trabalha com essa questão tem a ver com o seguinte: eu quero continuar ganhando dinheiro, não importa o impacto social, econômico, ambiental ou climático das minhas atividades. São interesses econômicos, que é muito diferente de negacionismo”, afirma. Ao tratar o tema como controvérsia científica com dois lados equivalentes, a cobertura legitima posições que não têm base técnica e amplifica a desinformação que pretende combater.

Marengo reforçou que a credibilidade do jornalismo e da ciência compartilham os mesmos pilares: integridade, neutralidade e independência. “Se perdermos algum desses, é perigoso para nossas carreiras”, diz. Para ele, o jornalista especializado em clima precisa resistir tanto ao sensacionalismo quanto à tentação de entrar no debate político partidário, mantendo o foco nas evidências e nas fontes verificáveis. Entre as plataformas indicadas pelos dois pesquisadores estão o MapBiomas, que oferece dados históricos de cobertura vegetal, recursos hídricos e concentração de gases por município, o portal do Cemaden e os repositórios institucionais do IPCC.

A ciência não tem lado. Com qualquer governo que entre, de direita, esquerda ou centro, sempre vai ter desastre, sempre vai ter necessidade de previsão de tempo e vai ter impacto de mudança climática, acreditem ou não”, afirma Marengo. O papel do jornalista, na visão dos dois cientistas, é ser a ponte entre a produção científica, os governos e a população, transformando em linguagem acessível um conhecimento que, se ficar restrito aos artigos acadêmicos, não muda comportamentos nem orienta políticas públicas.

Além de questões da comunicação, Marengo e Artaxo trataram de assuntos específicos sobre clima e mudanças climáticas e respoderam às muitas perguntas dos associados da Agrojor. O workshop foi conduzido pela jornalista Angela Ruiz, especialista em cobertura de clima. 

O conteúdo completo do workshop é acessado apenas pelos jornalistas associados à Agrojor. 

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