Jornalismo Agrícola

Por dentro da IFAJ: os planos dos líderes globais para o jornalismo agro

São Carlos, no interior paulista, recebeu na manhã desta terça-feira (17) a reunião master das lideranças da Federação Internacional de Jornalistas Agrícolas (IFAJ), que é parte do Executive Meeting IFAJ 2026, evento que se encerra nesta sexta-feira. A reunião da diretoria global com os delegados é o encontro mais importante do calendário anual da IFAJ para avaliação dos impactos de suas políticas. Organizado pela Rede Agrojor, a reunião executiva contou com 33 lideranças dos países participantes, entre presencial e online. A presidência da Rede Agrojor, com Vera Ondei, e Daniel Azevedo, como vice-presidente internacional, recebeu os delegados. A mesa diretora da IFAJ foi composta por Steve Werblow (presidente), Addy Rossi (vice-presidente), Adrian Bell (secretário-geral) e Magda du Toit (tesoureira). O encontro serviu para avaliação de programas em andamento, votação de questões administrativas e definição de rumos para 2026 e além. “Para a Agrojor é um momento também de aprender e interagir com a entidade global e estarmos juntos para os desafios do jornalismo mundial”, diz Vera. Para abrir a reunião, Werblow traçou um paralelo entre o momento global, marcado por guerras, instabilidade tarifária e crise energética, e a trajetória do agronegócio brasileiro. “O Brasil passou de importador de carne bovina, de arroz e outros produtos, para se tornar uma força dominante na exportação global em uma única geração”, afirmou o presidente, que utilizou o caso do país como referência de transformação em contextos adversos e que isto é uma lição também para os desafios da IFAJ. Entre os temas de maior discussão, o avanço, ainda em curso, do Certificado em Jornalismo e Comunicações Agrícolas desenvolvido em parceria com a Universidade de Illinois (EUA), foi destaque, justamente pela importância das ações educativas. A iniciativa partiu de duas pesquisas conduzidas com membros da IFAJ: a primeira, em 2022, ouviu 147 jornalistas e especialistas em comunicações agrícolas de 40 países; a segunda, em 2024, registrou 21 respostas de associados da federação. O programa prevê quatro módulos assíncronos, cada um com duração estimada de quatro semanas, totalizando 16 semanas para a obtenção do certificado. Os módulos cobrem: dados e jornalismo agrícola; produção multimídia; liderança no jornalismo agrícola; e pensamento crítico aplicado à cobertura do setor. A proposta foi submetida à Universidade de Illinois em maio de 2025, mas o projeto aguarda a contratação de um novo diretor para o programa, prevista para maio de 2026. Owen Roberts, ex-presidente da IFAJ e criador da proposta junto à universidade, explicou que o atraso decorreu de sua saída da instituição em julho de 2025, após cinco anos. “Reconheço que o problema foi eu ter deixado a Universidade de Illinois”, disse Roberts. O plano original previa agosto de 2026, mas sua efetivação pode vir até janeiro de 2027. Roberts conta que o grupo de alunos arrecadou US$ 5 milhões (cerca de R$ 25 milhões) para viabilizar a estrutura do centro de comunicações agrícolas, incluindo a construção de sala equipada com tecnologia. O vice-presidente Addy Rossi, que acompanhou o processo junto à universidade, apontou que há planos alternativos em andamento: além de Illinois, a IFAJ avalia uma parceria com uma instituição de Guadalajara, entre outras iniciativas. A Espanha, representada por Rosana Cervera, informou ter um certificado em comunicação agrícola em operação em colaboração com a Universidade de Córdoba e se ofereceu para colaborar com o projeto global. Parceiros, programas e prêmios Na área de desenvolvimento profissional, Adrian Bell, secretário-geral, apresentou o avanço dos webinários da IFAJ. Por exemplo, um encontro já realizado para debater os resultados da COP30 para a agricultura, realizada no Brasil em novembro passado. Para o futuro, o programa Global Network Partnership, mantido com patrocínio da Syngenta, foi renovado por mais um ano e contará com aporte acima de US$ 20 mil (cerca de R$ 100 mil). A parceria financia visitas a entidades nacionais, conexões institucionais e apoio a associações em regiões menos engajadas com a federação. Entre as iniciativas recentes, a IFAJ firmou memorando de entendimento com a Câmara Nacional de Agricultura da Guiné, país em que a liberdade de imprensa enfrenta restrições. O acordo reconhece o jornalismo agrícola como ferramenta de desenvolvimento do setor no país. Quanto ao prêmio IFAJ Star Prize, o mais importante da entidade, Bell informou que as parcerias vêm sendo firmadas e em breve as inscrições para a edição de 2026 serão abertas, mantendo o formato individual adotado nos dois últimos anos, no qual os próprios jornalistas submetem seus trabalhos, sem intermediação de suas entidades. No mesmo pacote está o programa Young Leaders, desenvolvido em parceria com a Alltech. Bell destacou que o programa contempla apenas “parte dos países membros da IFAJ e que ampliar essa cobertura é uma prioridade”. Os diretores também fizeram considerações sobre o próximo Congresso Mundial da IFAJ, que será realizado na Croácia, com inscrições já abertas. O evento em 2027 está previsto para Vancouver, no Canadá. 70 anos de IFAJ A celebração dos 70 anos da IFAJ foi apresentada pela diretoria como um marco institucional que pode combinat trajetória histórica e reposicionamento estratégico. Fundada no pós-guerra com o objetivo de conectar jornalistas de diferentes países, a entidade consolidou, ao longo de sete décadas, uma rede global dedicada à cobertura dos sistemas alimentares. “Setenta anos de jornalistas contando as histórias da agricultura, setenta anos tentando melhorar as realidades de cada continente e setenta anos defendendo o valor informativo e responsável do jornalismo sobre o sistema alimentar que sustenta o nosso mundo”, disse Rossi. A construção da federação é descrita como um processo coletivo e contínuo. Segundo o jornalista, é fundamental dizer que “nossa história nunca foi escrita por um pequeno grupo. Ela foi escrita por todos nós.” Para ele, a atuação cotidiana dos jornalistas — em reportagens, eventos e interações com o público — sustenta a relevância da organização. Atualmente, a IFAJ reúne jornalistas de mais de 60 países, com presença em todos os continentes, em um cenário em que a agricultura ocupa posição central nos debates globais. “A agricultura está no centro de debates globais, muitas vezes entre pessoas que vivem muito longe das

Congresso Mundial da IFAJ em 2026 será na Croácia e Rede Agrojor foi saber como será

O Congresso Mundial da IFAJ de 2026 ocorrerá na Croácia, na cidade de Osijek, em setembro, e marcará uma edição em que as transformações da comunicação, o avanço da desinformação e as mudanças no ambiente agrícola europeu exigem atualização técnica do jornalismo rural. Em entrevista à Rede Agrojor, Vedran Stapić, presidente da Associação Croata de Jornalistas Agrícolas (CAJA), explica como o país organizará o congresso e quais temas estarão no centro das discussões. Stapić afirma que o encontro será uma oportunidade para jornalistas de mais de 50 países debaterem o impacto da inteligência artificial na produção de conteúdo, a queda da objetividade no ambiente digital e o reposicionamento das políticas agrícolas europeias após a guerra na Ucrânia. As informações orientam os associados da Rede Agrojor a iniciar o planejamentos de pauta e reportagens para concorrer aos prêmios internacionais promovidos pela IFAJ, como o Star Prize. Confira: Qual o significado de um congresso mundial para o jornalismo agrícola em um momento de grandes transformações globais?Acredito que o papel do jornalista agrícola hoje é de importância excepcional. Existem muitos desafios, o que torna o encontro e a troca de conhecimento mais do que bem-vindos. Compartilhar conhecimento nos ajuda a avançar. Há muita comunicação pública hoje. As plataformas tecnológicas criaram oportunidades para que todos se comuniquem globalmente com sucesso. No entanto, nesse processo, a relevância e a objetividade estão se perdendo. Há uma quantidade crescente de desinformação e verdades distorcidas, trazendo novos e sérios desafios para nossas sociedades. Mesmo muitas democracias hoje estão conceitualmente ameaçadas, especialmente aquelas em comunidades com baixos níveis de alfabetização midiática. O fato de o consumo de informação ter migrado para as redes sociais traz inúmeros riscos. A agricultura também enfrenta muitos desafios. As tendências globais criaram um ambiente de incerteza e mudanças nas prioridades de investimento. As políticas atuais mostram claramente que a Europa está mais disposta a investir em defesa do que na produção de alimentos e na preservação das áreas rurais. Devemos também mencionar o tema inevitável da inteligência artificial, que está entrando com força na indústria da mídia. Estamos testemunhando uma transformação marcante — que só tende a se acelerar. Por que a Croácia foi escolhida como país sede do congresso e o que isso representa?Meu antecessor, o primeiro presidente da Associação Croata de Jornalistas Agrícolas, Sr. Martin Vuković, iniciou a candidatura da Croácia para sediar o Congresso Mundial da IFAJ, que, para nossa grande satisfação e alegria, foi positivamente recebida. O interesse da IFAJ está em oferecer uma variedade de anfitriões com fortes capacidades organizacionais. É sempre benéfico para os jornalistas terem a oportunidade de comparar diferentes modelos de agricultura e modos de vida das comunidades rurais ao redor do mundo. Acredito que os membros têm interesse em ver o congresso circular entre diferentes continentes, sendo realizado tanto em países grandes quanto pequenos, e em economias mais ricas e também menos desenvolvidas. Como a equipe croata está estruturando o evento para refletir a identidade da IFAJ e apresentar o cenário agrícola do país?Nosso objetivo é mostrar as duas faces da agricultura e pecuária croata – a continental, que gera a maior parte da renda e do volume de produção, e, por meio dos pós-tours, a agricultura mediterrânea, que possui características muito diferentes. A Croácia é um país pequeno com uma rica tradição – a própria base do nosso desenvolvimento turístico. A cada ano, recebemos cerca de 20 milhões de turistas, o que equivale a cinco vezes a nossa população. O programa, é claro, seguirá as diretrizes da IFAJ, oferecendo uma visão abrangente do estado da nossa agricultura, da vida das nossas comunidades rurais e das nossas ambições para o futuro. Nos reuniremos na Eslavônia, na cidade de Osijek, que ocupa uma posição de importância crucial para a agricultura croata. Planejamos organizar um pré-tour no noroeste da Croácia, no Condado de Varaždin, assim como dois pós-tours ao longo da costa do Adriático – um na Ístria e outro no Condado de Zadar. No continente, o foco será em cereais e oleaginosas, produção de carne e laticínios, viticultura e vinificação. Nas regiões costeiras, os visitantes conhecerão a produção de azeite, fruticultura, raças autóctones de animais, piscicultura e poderão provar nossas conquistas na vinificação e nossas especialidades tradicionais de carnes curadas. Principais pilares temáticos estão sendo construídos para a edição de 2026?Planejamos concentrar a parte profissional do congresso nos desafios atuais enfrentados pelo jornalismo agrícola, bem como pelo cenário midiático em geral. Naturalmente, também buscaremos oferecer uma visão mais ampla da agricultura croata dentro do contexto da União Europeia. A Croácia é o membro mais jovem da UE, onde grande atenção é dedicada à transição energética e à sustentabilidade – embora, admitidamente, em um ritmo um pouco mais lento hoje devido à guerra em andamento na Ucrânia. A Europa escolheu adotar altos padrões na produção de alimentos, com autossuficiência e qualidade permanecendo em níveis muito elevados. Nossa intenção é dedicar um painel exclusivamente às perspectivas da UE sobre a produção de alimentos, explorando as políticas, desafios e direções futuras que moldam a agricultura europeia. Como o congresso pode fortalecer a integração entre a Europa Central e Oriental e outras regiões com entidades ligadas à IFAJ?O fluxo de informações que acompanha grandes eventos internacionais sempre traz oportunidades para o país anfitrião. Estou genuinamente satisfeito que, em setembro do próximo ano, nossa pátria estará em destaque. Acredito que isso contribuirá para construir relações mais fortes, incentivar a interação e talvez até abrir portas para futuros negócios ou investimentos. Nesse sentido, há muito trabalho pela frente – somos um país jovem com enorme potencial. Do ponto de vista da IFAJ e considerando o grande número de jornalistas agrícolas em toda a UE, já estamos testemunhando grande interesse. Muitos colegas já anunciaram que estão ansiosos para participar do Congresso Mundial da IFAJ na Croácia, de 16 a 20 de setembro de 2026. Como vê os progressos alcançados pela federação no últimos congressos?Vejo a IFAJ como uma associação que traz valor a seus membros em vários níveis. Ela preserva o jornalismo

Nairóbi para o mundo: o futuro da agricultura global será discutido aqui

Por Jackson Okata, da Mesha. Durante quatro dias transformadores neste mês de outubro, Nairóbi receberá o maior encontro mundial de jornalistas agrícolas, comunicadores, cientistas, inovadores e líderes políticos, quando terá início o Congresso Mundial 2025 da Federação Internacional de Jornalistas Agrícolas (IFAJ). O evento, sediado no Hotel Ole Sereni, ocorre em um momento em que as mudanças climáticas e as transformações tecnológicas estão redesenhando os sistemas alimentares globais, o que torna o congresso vital e oportuno. Como centro africano de tecnologia e inovação, Nairóbi oferece o palco ideal para essas discussões urgentes. Nesta semana, de 15 a 18 de outubro, delegados de todo o mundo participarão de conversas projetadas para informar e também inspirar ações que moldem e transformem o futuro da agricultura. O Secretário de Gabinete do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Pecuário do Quênia, Mutahi Kagwe, deverá liderar uma delegação governamental de alto nível no congresso. Estarão presentes os principais pesquisadores e cientistas de instituições como Croplife International, CGIAR, Organização de Pesquisa em Agricultura e Pecuária do Quênia (KALRO), AGRA, Conselho do Chá do Quênia e outras, além de empresas globais do agronegócio, como a Basf. A principal rede que atua no mercado de sementes, a Associação Africana de Comércio de Sementes, também participará. O Escritório do Centro Internacional de Pesquisa para o Desenvolvimento (IDRC) para o Leste e Sul da África conduzirá sessões plenárias, assim como a Fundação Africana de Tecnologia Agrícola (AATF). A Federação Internacional de Sementes também confirmou sua participação no congresso. De acordo com o Osir Oteng, haverá uma sessão especial dentro do programa de Pesquisa-Ação da MESHA para Melhorar a Cobertura Eficaz de Questões de Mudança Climática na África (ARECCCA). O projeto, que une a MESHA e o IDRC, abordará o tema Gênero, inclusão e comunicação climática: dando voz aos mais vulneráveis. MESHA (Media for Environment, Science, Health and Agriculture) é a organização sediada no Quênia que reúne jornalistas, comunicadores e profissionais de mídia especializados em meio ambiente, ciência, saúde e agricultura. Além disso, o ILRI, por meio do Acelerador CGIAR sobre Igualdade de Gênero e Inclusão, realizará uma sessão intitulada Contando histórias de gênero, juventude e inclusão social na agricultura na África: a experiência do CGIAR. A MESHA está mobilizando a mídia regional para desenvolver e publicar histórias inspiradoras sobre gênero, juventude e inclusão social na agricultura africana, em linguagem acessível para formuladores de políticas, classe política e comunidades locais, tanto em inglês quanto em suaíli. O encontro global anual é organizado pela organização Mídia para Meio Ambiente, Ciência, Saúde e Agricultura (MESHA), sob o tema “Desbloqueando o potencial agrícola no berço da humanidade”. Em sessões plenárias dinâmicas, os delegados discutirão alguns dos maiores temas da atualidade, incluindo como a inteligência artificial pode transformar a vida dos pequenos produtores africanos, como garantir sistemas alimentares resilientes em um mundo que aquece rapidamente e o papel das mulheres, dos jovens e do conhecimento indígena na configuração dos sistemas alimentares do futuro. Nas sessões paralelas, os participantes se envolverão em discussões práticas e detalhadas sobre sistemas de sementes, nutrição, custos de insumos, uso da terra e acesso ao mercado — desafios enfrentados por agricultores em todos os continentes. Fora das salas de conferência, 14 visitas de campo imersivas estão programadas como parte do Congresso Mundial IFAJ 2025. Desde as plantações de chá de Kericho até as paisagens áridas onde práticas resilientes ao clima estão reescrevendo histórias de sobrevivência, essas visitas oferecerão aos delegados uma visão de como políticas podem se transformar em ações concretas. O congresso IFAJ 2025 oferece aos jornalistas uma oportunidade rara de aprimorar habilidades, construir colaborações e redes, e descobrir histórias inéditas que exigem atenção global. Formuladores de políticas, pesquisadores e cientistas terão à disposição um rico mercado de ideias, soluções e alianças capazes de transformar a agricultura mundial.